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EXPOSIÇÕES

Sociedade Nacional de Belas Artes, Diário dos sonhos diurnos na transição dos séculos

8 de Abril de 2005

Os desenhos de Rui Paiva, um autor do final do século XX e início do seguinte, desencadeiam em nós, observadores deles tão afastados mas habituados a tantos e tantos espectáculos, uma pluralidade de sentimentos contraditórios: estranheza e familiaridade, reconhecimento imediato e vontade de reflexão. A sua simplicidade, que parece evidente, é, por isso mesmo, desconcertante no contexto em que se apresenta; a sua profusão que aparece infinita, é, por isso mesmo, excessiva num tempo que já era de repetições e serialização.

Multiplicados por centenas de folhas soltas de todos os tipos e por dezenas de cadernos de desvairados tamanhos, cores, gramagens e texturas de papel os desenhos de Rui Paiva crescem, saem das pastas que os prendem, escorregam do pano da pequena mesa de jogo para os bancos chineses e para as cadeiras forradas, soltam-se aos esticões das espirais dos cadernos deixando a esvoaçar pequenos fragmentos de papel, espalham-se nos tapetes pelo chão, desejam subir pelas paredes carregadas de pinturas antigas, fixam-se nos tectos de estuque fugindo aos livros empoeirados que, nas estantes, os olham lúbricos… Quando finalmente encontram uma longa parede branca e se acalmam, quando param, quando se reagrupam, esses desenhos, formam pequenas manchas expectantes, alinham-se uns ao pé dos outros, sussurram pequenas histórias sem nexos claros, como quem representa discretos teatros sem guião. Olhamos para eles e eles para nós, aproximamo-nos com cautela, não vão eles fugir de novo, e mostramo-nos dispostos a perceber o que, de tão longe, nos querem dizer, o que há tanto tempo têm para nos mostrar. Pegamos num, viramo-lo, fazemos uma pilha com imagens que julgamos sequenciais, mas mal voltamos as costas eles mudam de sítio, boicotam as arrumações, procuram a sua própria lógica, troçam de nós…

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Podemos estar convencidos de que a sua mensagem é algo simples, fácil, quase naïf. O traço é, geralmente, uma linha clara que, por vezes se enrola, que escurece e se ensombra, mas que, outras mais vezes ainda se desenrola numa continuidade labiríntica, serpenteante, também ela tendencialmente infinita, padronizável.

É bom que nos desenganemos — estes desenhos não são simples exercícios de ócio, são tudo menos distraídas composições inconscientes realizadas durante uma reunião maçadora ou uma longa conversa telefónica. Resultam de um constante labor, iniciado na adolescência, e que Rui Paiva manteve com grande constância formal, temática e de intensidade de trabalho - essa persistência permitiu-lhe apurar, ao longo dos anos, a capacidade de, sendo extremamente simples, ter capacidade para tratar dos assuntos da humanidade em geral e em particular.

A guerra, a fome, a corrupção, os jogos políticos, as relações humanas têm assim duas dimensões: uma universal outra aplicada a casos concretos da sua vida por muitas terras repartida (episódios relacionados com a vida pública de Moçambique, Macau e Portugal, episódios da política internacional, por exemplo). Um vasto contacto (juvenil) com a realidade cultural africana e, mais fortemente (por contactos prolongados na idade adulta), com a cultura chinesa, são elementos complementares essenciais ao seu entendimento. Através de pequenos sinais repetidos, ou ligeiramente alterados, usando soluções previsíveis ou imprevisíveis Rui Paiva foi construindo uma teia de discursos cerrados sobre o real — uma das originalidades desse discurso é, precisamente, cruzar o destino crítico e o onírico. É essa dimensão que nos permite alongar a visão para além deles mesmos, falar com eles vê-los passear pela cidade, desarrumar a casa…

Num canto, perto de um rodapé ou de uma sanca muito alta, um ou dois desenhos soltam ainda a suas estridentes cores. Aqui, juntam-se grandes complicações: maquinarias onde o biológico (humano e animal) e o mecânico se cruzam em hibridismos biónicos invasores do espaço limitado do papel e da ilimitada imaginação nossa e do autor. Ali, o desenho esvazia-se de pesos e gestos, as formas mal afloram a pele do papel e o que nos mostram são composições de exacerbado lirismo onde as coisas da natureza (nuvens) ou as coisas da indústria (aviões) se tornam pessoas mostrando a delirante imaginação das formas e as possibilidades da sua metamorfoses.

Cada um dos elementos de qualquer um destes desenhos, de qualquer uma das fases ou temas desenvolvidos, tem um sentido claro e obscuro, cada imagem é e não é fechada sobre si própria, porque se basta mas porque depois reaparece aqui e ali, hoje e amanhã, agora e logo.

Cai um desenho da parede e num livro aberto as folhas começam a mexer-se sozinhas passando cada vez mais rápida e ruidosamente e vemos passar diante dos nossos olhos o que poderiam ser todos os desenhos do mundo.

É imediata a associação, nestas imagens, com o referencial de formas popularizadas no século XX como surrealistas. E não sendo o autor surrealista, por descoincidência histórica, relativização do credo e moderação das opções de vida, diremos então que tais formas são, nele, surrealizantes. O modo como Rui Paiva recria a realidade cultural massificada do surrealismo permite-lhe, aliás, evitar estereótipos: o que aproveitou do surrealismo foi mais do que uma receita formal, mais do que um modo de desfigurar, acoplando e/ou metamorfoseando, as formas estabilizadas do real. O que importa considerar é algo de mais profundo: a liberdade da crítica e o desmando do sonho. Rui Paiva gere a vontade de mudar o real instalando nele a possibilidade ou a dimensão dupla do onírico – sonho sardónico e sonho lírico. Ano após ano, dia após dia, desenho atrás de desenho ele foi constituindo assim um verdadeiro diário de sonhos, imagem de rara claridade no tempo que lhe coube viver: comentários ao quotidiano mais abstracto e ao quotidiano mais concreto e projectos de fugas (mergulhos e voos) para fora dele. A evocação da água e do ar não é, nesta estratégia, uma simples metáfora — é um material e um resultado de trabalho.

Lisboa, 1 de Abril de 2105

João Pinharanda

Contactos:

Sociedade Nacional de Belas Artes
Rua Barata Salgueiro nº 36,
1250-044 LISBOA
Telf. 213138510
geral@snba.pt


info@ruipaiva.com